Expansão de perda florestal pode ameaçar mais de 400 indígenas, de três etnias. Região está dentro da área de influência da BR-319.

Quatro terras indígenas do Amazonas apresentaram, pela primeira vez em dez anos, áreas de floresta derrubadas, conforme boletim de monitoramento do Observatório da BR-319. O desmatamento na região pode representar uma ameaça para mais de 400 indígenas que vivem nas quatro TIs, das etnias Apurinã, Paumari e Mura.

O boletim foi elaborado com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). O desmatamento inédito, registrado no mês de julho, preocupa lideranças indígenas e pesquisadores.

Em toda a Amazônia, os alertas de desmatamento subiram 68% em agosto de 2020 na comparação com o mesmo mês do ano passado, de acordo com dados do Imazon. O instituto afirma que é o pior mês de agosto verificado nos últimos 10 anos de monitoramento. O Amazonas aparece em segundo lugar no ranking dos estados com mais desmatamento na região.

Sem histórico de desmatamento e, até então intactas, as terras indígenas afetadas são:

  • Alto Sepatini (Lábrea);
  • Paumari do Cuniuá (Tapauá);
  • Paumari do Lago Manissuã (Tapauá);
  • Setemã (Borba, Novo Aripuanã).

 

A área derrubada soma pouco mais de 9 hectares, mas, apesar de estar no início, representa uma modificação no comportamento de desmatamento nessas terras. Segundo o observatório, ainda não é possível identificar se essa é uma modificação permanente ou pontual.

“Esse registro é inédito desde o início do monitoramento dessas áreas, em janeiro de 2010, então é correto dizer que essas terras estavam preservadas há pelo menos 10 anos e agora apareceram no mapa de desmatamento, devendo ser um foco de atenção nos monitoramentos dos próximos meses” destacou Paula Guarido, pesquisadora que acompanha e analisa os dados coletados através do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Com 13 focos, a TI Coatá-Laranjal (Borba) liderou o número de focos de calor em julho, seguida pela TI Tenharim Marmelos (Gleba B) e pela TI Tenharim/Marmelos (Humaitá/Manicoré), que apresentaram oito e cinco focos, respectivamente.

A coordenadora de Políticas Públicas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) e secretária-executiva do Observatório, Fernanda Meirelles, informou que o desmatamento identificado nas terras indígenas não tem ligação direta com a construção da BR-319.

“A gente monitora o que chama de área de influência da BR. Hoje a gente não considera o desmatamento nessas terras indígenas como relação direta com BR-319, mas está dentro da área de influência da estrada”, explicou.

 

De acordo com ela, o problema não é apenas a rodovia, mas toda a ideia de desenvolvimento para a região, que pode sofrer com falta de fiscalização nas áreas e falta de ações de comando e controle, que propiciam atividades ilegais, como retirada de madeira e garimpo.

O Observatório BR-319 é formado pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), Fundação Amazonas Sustentável (FAS), Fundação Vitória Amazônica (FVA), Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), Wildlife Conservation Society (WCS) e o WWF-Brasil.

Fonte G1.com